O lugar fora do espaço?

 

Resumo

Depois de Marshall McLuhan ter inventado o termo "aldeia global", ele se materializa de forma inesperada. A comunicação de massas deixa de ter um único modelo, aquele em que poucos controlam o que é consumido por muitos. As redes técnicas conectam os diversos lugares na superfície da Terra, reduzindo distância e ultrapassando fronteiras. Essas redes ocupam espaços, criam topografias novas, onde existe o máximo de diversidade e interatividade entre seus componentes. A internet, essa super estrada digital de informações, defronta-se diretamente e primeiramente com as questões culturais, que freqüentemente são reflexos da problemática econômica, mas têm certa autonomia.

Num primeiro olhar, avulta no campo cultural a gigantesca revolução tecnológica. No seu coração estão: a informatização da microeletrônica, a engenharia genética, a química fina, a telemática, a robótica, e tantos outros ramos da ciência. Pouco a pouco, a revolução industrial perde importância em relação à nova onda que favorece mais os serviços que a construção de grandes indústrias.

Nessa nova conjuntura social, torna-se extremamente decisiva a geração do conhecimento, seu domínio, sua manipulação, no mundo da produção, da gerência e dos serviços. As distâncias entre os países se definem pelo grau de saber acumulado e socializado no seu interior. As pessoas, regiões, nações desenvolvem-se à medida que adquirem mais conhecimento em dois níveis. Antes de tudo, uma educação básica mais ampla e sólida para que se possam assimilar mais fácil e rapidamente os novos conhecimentos. Em termos de Brasil, sem o correspondente ao segundo grau completo, as pessoas dificilmente se preparam para acompanhar a revolução tecnológica. As máquinas cada vez mais sofisticadas exigirão dos operários para manipularem-nas sempre maior capacidade intelectual e familiaridade com os novos tipos de saber.

Considero esse tema complexo e ainda pouco explorado. Sendo estas análises provisórias no conjunto do conhecimento, as mesmas podem ser alteradas e aprofundadas posteriormente, com a continuidade dos estudos no campo das relações da sociedade e das tecnologias. Este texto é ainda um esboço, portanto peço que o considerem com generosidade nos debates.

 

 

Palavras-chave: informatização; revolução tecnológica; fronteiras; desterritorialização; globalização; internet; manipulação; cultura de massa.

 

 

O começo do fim?

 

 

 

“Vivemos hoje na época de objetos, tijolos

estilhaçados em fragmentos, e resíduos.”

Deleuze e Guattari

 

 

A Internet é a porta para o futuro. Ligando milhões de computadores no mundo, essa enorme rede de comunicação serve para tudo, da pesquisa profissional ao trabalho escolar, do jogo às compras, do namoro às perversões sexuais. Cria fortunas e gera malucos.

Também é palco de experiências científicas que logo vão estar no nosso dia-a-dia. Que tal, por exemplo, transmitir uma sensação pelo seu computador de bolso? No meio tempo, há considerações mais prosaicas a ser enfrentadas. Quem governa a rede? A Internet tem dono? Pode ser usada de qualquer jeito, até com pornografia infantil? Como recolher direitos autorais?

Essas discussões mobilizam cientistas, juristas, governos e capitães da florescente indústria internética. A Web é com certeza um fenômeno universal. Mas, de acordo com um estudo publicado em 1996 por um sociólogo canadense, é surpreendente constatar que essa famosa rede mundial pode, muitas vezes, ser comparada a uma imensa festa de slides onde ninguém conhece ninguém. François Bergeron lançou-se então ao estudo dessas “figuras” que navegam na Web, contando, ingenuamente, e em três línguas o número de eu “je”, “yo”, “I” que se apresentam na rede. Quanto à língua comum, é principalmente o “eu” que é empregado entre os internautas na Web, excelente posto de observação do crescimento do individualismo em nossas sociedades.

É assim que algumas pessoas fazem da “rede” uma formidável rede de trocas. Certamente. Mas é também, principalmente, um extraordinário instrumento de desabafo que, ao contrário de um animador de show televisivo, - tipo Faustão, Gugu ou Ratinho - em que, no dia seguinte, todo o bairro o reconhece, é não apenas mundial (o que é inebriante), mas também anônimo. A idéia, explica Fanny Carmagnat, pesquisadora do CNRS (NDE: Centro Nacional de Pesquisas Científicas, França), é exatamente estar ali, mostrar-se, sair da solidão e existir.

Além das páginas pessoais, encontra-se agora na rede uma outra forma de exibição de si próprio, mais perturbadora ainda: o diário íntimo on line, novo modo de confissões públicas como os estadunidenses os consideram, modo, aliás, oriundo dos Estados Unidos. Íntimo, mas, na web, o paradoxo é perturbador, é o privado que se deixa ver, segundo a expressão de Philippe Lejeune, universitário francês, especialista em diários íntimos e autobiografias. Mas até que ponto as pessoas podem ser liberadas?

 

 “Quando tudo é livre, nada o é. Mais do que qualquer outro meio de comunicação, a Internet nos torna escravos da comunicação forçada: é o que poderíamos chamar de o êxtase da comunicação. Vivemos na era da chantagem da comunicação, da qual o telefone celular, ao lado da Internet, constitui uma das metamorfoses mais recentes. O telefone celular é um instrumento obsceno que gera uma quebra temível entre o privado e o público. Neste sistema de comunicação, tudo é intercambiável. Nada mais é referencial. E perdemos a distância que nos permitia fazer julgamentos de valor ou outros. (...)

A Internet nos oferece uma massa tão avassaladora de informações potenciais que acabamos fazendo parte dessa nebulosidade. Tudo é disperso, volatilizado. Mais do que um espaço de conhecimento e aprendizagem, é um espaço de desaparecimento, uma forma de perda por excesso que nos submerge. (...)

A comunicação máxima é, sobretudo, um meio de reduzir nossa incerteza. O mundo virtual não possui senso do outro. Para fazer parte dele é preciso aceitar o código. Não há espaço para originalidade. Neste mundo, só é possível estar aberto. A alienação deixa de existir. Seria possível chamar a isto progresso, num sentido absoluto, mas discordo dessa definição. Não vejo como os meios de comunicação tradicionais, tais como o discurso oral e a escrita, possam reconciliar-se com a onipresença da tela. Mergulhamos dentro da imagem, assim como nos tornamos parte de uma rede. Deixamos de existir, exceto enquanto terminal de rede ou lugar de interconexão. Deixamos de ter um lugar próprio. Nas telas – que nada mais são do que uma superfície – não vejo textos, vejo imagens. (...)

O surgimento da escrita não representou o fim do discurso oral. Com a Internet e a "super-rodovia da informação", podemos falar não apenas do desaparecimento do discurso interpessoal, mas também do fim da escrita.

A escrita não existe em tempo real. Escrever exige distanciamento que a Internet, com sua obsessão pela simultaneidade, anula. A Internet e o computador estão dando origem a uma nova linguagem, uma nova maneira de funcionar, regida por novas normas. A Internet é globalizante e imperialista, do mesmo modo que a própria civilização ocidental o é. Ela exige que todos nós entremos na rede, que mergulhemos totalmente nela. Hoje em dia é preciso andar bem longe para encontrar um espaço livre de telas. (...)”

BAUDRILLARD, Jean. Tela Total: mitos-ironia da era do virtual e da imagem. Sulina, Porto Alegre, 1997, pp. 23-28, 145-150.

 

Um dia, sem dúvida, as gerações aculturadas e desculturadas nascidas da Internet e do mundo virtual deixarão de ter qualquer idéia de que possa existir algo fora isso. Elas já não terão base para comparações. Assim, não haverá mais conflito. Viveremos num consenso total. O mundo da política internacional revela talvez melhor que qualquer outro, a natureza desse processo.

A expansão inédita em massa das novas tecnologias, concernentes a todos os lugares do globo, corresponde a um esvaziamento crescente do sentido e do significado dessas mesmas tecnologias. Sem história, banalizadas por um estilo dificilmente decifráveis e incompreensíveis.

As várias edições de retrospectivas de final de ano dos meios eletrônicos e da imprensa, momentos privilegiados do sistema contemporâneo de informações, sintetizam essa operação de esvaziamento dos significados dos eventos: a paisagem fragmentária que elas apresentam confere ao mundo da política internacional o aspecto caótico de um quebra-cabeça de infinitas peças...

 

Quais as características de uma notícia?

Deve, sobretudo, ser a mais exata possível. E isto é o mais difícil dado à diversidade, multiplicidade e precariedade das fontes e a freqüente impossibilidade dos jornalistas serem testemunhas em tempo real do acontecimento. O jornalista deve ser bastante competente e perspicaz para descobrir as inexatidões e as manipulações.

 

Quais os escalões de base, os primeiros passos, na cadeia da informação?

Entre o acontecimento e a sua divulgação existe uma série de fatos de ordem técnica, psicológica e em algumas vezes ideológicas. Entre os momentos que os observadores presenciam um acontecimento. Em que o jornalista, o correspondente recolhe o seu testemunho, o momento em que a agencia noticiosa faz uma seleção à saída e à chegada, o momento em que, no jornal, se leva também a cabo a seleção, existe uma série de procedimentos, cada um intervindo em cada procedimento, e nesse processo que pode ocorrer alguma interferência de ordem psicológica ou ideológica. O que pode ser interessante, importante ou significativo para uma agência, um redator ou um jornal, pode não ser para outro.

Jacques Fauvet, diretor do Le Monde

O lugar fora do espaço?

 

 

 

“Não mais representar o visível, mas tornar visível”.

Paul Klee

 

 

A internet é uma caótica rede em que os meios de expressão é o texto escrito, as imagens e o som, e que faz crer que a vanguarda do pensamento hoje se deslocou da arte para as margens ainda em explosão da tecnologia. A internet ("mãe de todas as redes", criação de pesquisadores estadunidenses sob pretexto da paranóia da Guerra Fria), subsiste em universidades, e começa a explodir em seus ramos comerciais.

Devido à ênfase do governo Clinton na comunicação digital, a Internet virou assunto da mídia como nunca antes. Seus 120 milhões de usuários (1998), que se sentem à vontade num sistema árido para os não-iniciados, sentem-se ameaçados. É como se uma praia de hippies e alternativos estivesse a ponto de virar uma grande Miami.

 

Países conectados à Internet por número de pessoas que usam a rede - 1998

 

País

conectados

% da pop.

1

EUA

62.000.000

30,0%

2

Japão

12.100.000

  9,6%

3

Canadá

8.900.000

31,0%

4

Grã-Bretanha

6.000.000

10,3%

5

Alemanha

5.800.000

12,1%

6

Austrália

3.000.000

16,6%

7

Suécia

2.400.000

27,0%

8

Brasil

1.800.000

 1,1%

9

Noruega

1.400.000

32,5%

10

Espanha

1.340.000

 3,4%

11

Holanda

1.300.000

 8,3%

12

França

1.300.000

 2,5%

13

Taiwan

1.260.000

 6,0%

14

Portugal

1.080.000

11,0%

15

Finlândia

1.040.000

20,4%

16

Hong Kong

850.000

13,4%

17

Dinamarca

800.000

16,0%

18

África do Sul

800.000

  1,7%

19

Polônia

700.000

  1,8%

20

Coréia do Sul

700.000

  1,5%

21

Itália

700.000

  1,3%

22

China

620.000

      0,005%

23

Malásia

600.000

 3,0%

24

Turquia

600.000

 1,0%

25

Rússia

600.000

 0,4%

26

Nova Zelândia

560.000

15,8%

27

Singapura

500.000

14,7%

28

Suíça

500.000

 9,4%

29

Áustria

500.000

 6,3%

30

Bélgica

478.000

 4,7%

31

México

370.000

 0,4%

32

Índia

240.000

  0,02%

33

Israel

200.000

3,7%

34

Hungria

200.000

2,0%

35

República Tcheca

200.000

1,9%

36

Chile

200.000

1,3%

37

Eslováquia

190.000

5,0%

38

Argentina

170.000

0,5%

39

Irlanda

150.000

4,2%

40

Islândia

121.630

45,0%

41

Colômbia

120.000

 0,3%

42

Grécia

100.000

 1,0%

43

Filipinas

100.000

  0,01%

44

Indonésia

80.000

   0,25%

45

Venezuela

35.000

 1,2%

46

Peru

31.000

 0,1%

47

Uruguai

9.000

 0,3%

48

Paraguai

1.000

  0,01%

 

Em todo o mundo

122.000.000

2,4%

Fonte: NUA (Irlanda), maio de 1998. Dado sobre o Brasil: IBGE, EMBRATEL e UOL.

(A NUA reúne resultados de pesquisas do mundo inteiro, de diversos institutos e empresas).

 

Esta revolução, que provavelmente não se restringirá aos EUA, o ciberespaço, hoje uma fronteira semidesconhecida, pode se transformar num shopping monstro, mais propício ao consumo que à experimentação.

Hoje nossas paisagens urbanas são traçadas segundo o último modelo do mercado internacional e os serviços urbanos totalmente caóticos e deficitários. Mas as contradições não param por ai, a intervenção e internacionalização do modo de vida estadunidense estereotipado e pasteurizado, vai pouco a pouco alterando a paisagem com seus néons prateados, tais como; shopping centers, lojas de “fast-food”, disk-food, sundown-bike, roto-rooter, full-machine, E-mail, happy burger, billy burger, work station, national service, designer filme, wordwine express, cliniphone, ice crean world, pager conectel, psico street, enge city, umbanda center, etc. etc. vão destruindo nossa unidade territorial e cultural. Para alguns críticos seria o lugar fora do espaço.

 

“Essa vontade de modernização e de unificação do espetáculo, ligada a todos os outros aspectos da simplificação da sociedade, levou em 1989 a burocracia russa a converter-se de repente, como um só homem, à presente ideologia da democracia: isto é, à liberdade ditatorial do Mercado, temperada pelo reconhecimento dos Direitos do homem espectador.

No Ocidente, ninguém examinou, nem por um instante, o significado e as conseqüências de tão extraordinário acontecimento do domínio da mídia. Foi uma prova do progresso da técnica espetacular. Registrou-se apenas a aparência de uma espécie de abalo geológico. Situado no tempo, o fenômeno foi considerado como compreendido, e todos  se contentam em repetir um pequeno sinal – a-queda-do-muro-de-Berlim –, tão indiscutível quanto os outros sinais democráticos.

Em 1991, os primeiros efeitos da modernização manifestaram-se com a complexa dissolução da URSS. Aí se revela, com mais nitidez que no ocidente, o resultado desastroso da evolução geral da economia. A desordem é mera conseqüência disso. Em toda parte será formulada a mesma pergunta apavorante, a que preocupa o mundo há dois séculos: como fazer para que os pobres trabalhem quando a ilusão é desenganada e a força se desagrega?

DEBORD, Guy. A sociedade do espetáculo. Contraponto, Rio de Janeiro, 1997. pp.11-13

Do mesmo modo como o hipertexto remove as barreiras da página impressa, a era da pós-informação vai remover as barreiras da geografia. A vida digital exigira cada vez menos que você esteja num determinado lugar em determinada hora, e a transmissão do próprio lugar vai começar a se tornar realidade.

Se, da janela eletrônica, eu pudesse de fato ver os Andes, ou vir os Lhamas e sentir o cheiro (digital) do seu estrume no verão, eu poderia, de certo modo dizer que estou no Peru. Se, em vez de ir trabalhar levando minha unidade carbono/água dos  meus átomos para o centro da cidade, eu acessar meu local de trabalho e fazer meu serviço por via eletrônica, qual será meu local de trabalho?

No futuro, vamos dispor da tecnologia necessária em termos de telecomunicações e realidade virtual para que um médico em S. Paulo faça uma delicada operação num paciente em Rio Branco. Num curto prazo, porém, um neurocirurgião ao operar o cérebro de um paciente não vai precisar estar na mesma sala de operação em que se encontra o tal cérebro, e ao mesmo tempo; muitas atividades como as dos chamados profissionais especializados, não apresentam essa mesma dependência do tempo e do espaço, razão pela qual serão desacopladas bem mais cedo da geografia.

Com tudo, alguns países, como o Japão levarão mais tempo para se libertar dessa dependência do tempo e do espaço, pois sua cultura resiste a essa tendência. (Uma das razões pelas qual o Japão, por exemplo, não adota o horário de verão é o fato de os japoneses considerarem necessário voltar do trabalho “depois de escurecer”; eles procuram não chegar ao trabalho depois do chefe nem ir embora antes deles.)

 

Para além da demografia

 

 

 

“Antes, o futuro era apenas a continuação do presente e avistavam-se
transformações no horizonte. Mas agora o futuro e o presente se fundiram”

Stalker, Andrei Tarkovski

 

 

Na era da pós-informação, o público que se tem é, com freqüência, composto de uma única pessoa. Tudo é feito por encomenda, e a informação é extremamente personalizada. Uma teoria amplamente difundida afirma que a individualização é a extrapolação do narrowcasting — parte-se de um grupo grande para um grupo pequeno; depois, para um grupo menor ainda; por fim, chega-se ao indivíduo. Quando você tiver meu endereço, meu estado civil, minha idade, minha renda, a marca do meu carro, a lista das compras que faço o que costumo beber e quanto pago de imposto, você terá a mim: uma unidade demográfica composta de uma só pessoa.

Era da pós-informação tem a ver com o conhecimento paulatino: máquinas entendendo indivíduos com o mesmo grau de sutileza (ou mais até) que esperamos de outros seres humanos, incluindo-se ai as idiossincrasias (como usar sempre uma camisa com listras azuis) e os acontecimentos aleatórios, os bons e os maus, da história ainda em curso de novas vidas.

Dou alguns exemplos. Informada pelo agente da loja de bebidas, a máquina poderia chamar sua atenção para uma oferta de determinado vinho, ou certa marca de cerveja que, ela sabe os convidados para o jantar de amanhã à noite gostaram muito da última vez. Ela poderia lembrá-lo de deixar o carro em alguma loja de pneus nas proximidades do lugar para onde você esta indo, pois o carro avisou-o que precisa de pneus novos. E a máquina poderia também recortar para você uma matéria sobre um novo restaurante, pois ele fica na cidade para onde você vai viajar daqui a dez dias e, no passado, você parece já ter concordado com o autor da matéria. Tudo isso baseia-se num modelo da sua pessoa como indivíduo, e não como membro de um grupo de compradores em potencial  de certa marca de sabonete ou pasta de dente.

(Excertos de: A vida Digital, pp. 143-177, de Nicholas Negroponte, São Paulo, Cia das letras, 1995)

 

Considerando-se que na era da pós-informação, você pode morar e trabalhar num único local ou em lugares diferentes, o conceito de “endereço” adquiri um novo significado.

Se você tem uma conta no TERRA, no SOL, na IBM ou no Universo On-line, sabe qual é o seu endereço eletrônico, mas não sabe onde é que ele tem sua existência física. No caso do Universo On-line, seu endereço na internet será sua identificação seguida de @.uol.com – o que vale em qualquer lugar do mundo. Não é só você que não sabe onde fica esse @.uol.com: quem quer que envie uma mensagem para esse endereço tão pouco fará a menor idéia de onde ele ou você está. O endereço se torna mais parecido com o número da carteira da identidade do que com um nome de rua. Trata-se de um endereço virtual.

Um dos maiores atrativos do correio eletrônico, e que ele não nos interrompe como a conversa telefônica. Você pode cuidar dele nos momentos de lazer, a razão pela qual pode até responder as mensagens que não teriam a maior possibilidade de atravessar as barreiras impostas ao telefone pelas secretárias das empresas.

O correio eletrônico, vê hoje sua popularidade explodir por que constitui um veículo assíncrono elegível pelo computador. Esse último aspecto é particularmente importante, pois os agentes de interface empregarão esses bits para priorizar e entregar mensagens de acordo com sua importância. O remetente e o assunto das mensagens poderão determinar a ordem segundo a qual você as lerá – o que não difere em nada da filtragem feita hoje pelas secretárias, que passam para você uma chamada pessoal e deixam esperando o executivo chefe de uma companhia. Mesmo num movimentado dia de trabalho, as mensagens eletrônicas pessoais podem acender o topo da lista.

 

Um novo mundo?

 

 

 

“No momento em que uma pessoa aceita uma realidade objetiva, uma verdade eterna, ela torna-se vulnerável, manipulável e eminentemente pensante vivendo num mundo integrado e interdependente.”

Wilson Bryan Key, A era da manipulação

 

 

Encontramos-nos diante de uma mudança profunda do mundo, que não é apenas tecnológica, mas abrange todas as esferas da vida social. Em vista das alarmantes manifestações deste processo – o perigo de uma grande guerra mundial, as depressões econômicas, a degradação ambiental e o desemprego – coloca-se esta urgente pergunta: que futuro nos aguarda? Para onde e para o que nos leva estas mudanças?

 

A Internet é o primeiro meio de comunicação de muitos para muitos. Quem controla o poder da comunicação de muitos para muitos pode controlar o destino da democracia no século 21. Como a máquina tipográfica, a Internet pode ser uma força democratizante. Como ela, a Internet é uma ferramenta poderosa, mas não uma utopia.

A Internet pode capacitar as pessoas a encontrar maneiras melhores de nos governarmos. Mas o resultado ainda não será uma utopia, mesmo que consigamos criar uma espécie de democracia moderna.

A tecnologia fomenta não apenas o poder de expressão, mas o poder de espionar, e a mesma ferramenta pode ser usada para ambos os fins. Não apenas o Estado, mas também nossos concidadãos já podem usar tecnologia Internet para descobrir informações a nosso respeito.

 

O mesmo sistema que leva informações até sua casa pode coletar muitas informações a seu respeito!

Mas a maior parte do mundo ainda tem um longo caminho a percorrer antes de começar a interessar-se, por pouco que seja, por luxos tecnológicos tais como a Internet. Uma em cada três pessoas no planeta ainda é funcionalmente analfabeta; a Ásia possui metade da população do mundo, mas apenas 5% de suas linhas telefônicas, e há países africanos cuja renda mensal média per capita é inferior ao custo de uma caixa de disquetes.

O que está acontecendo nos países desenvolvidos hoje pode ter implicações para os padrões futuros de uso da rede entre os dois terços remanescentes da população mundial, mas, com o tempo, a maioria global terá que ter acesso a sistemas de rede com as quais ainda nem sequer sonhamos. Para a maior parte do mundo, o uso dos meios de comunicação ainda terá que passar pelas tecnologias mais conhecidas, tais como a televisão e a telefonia simples. Quantos usuários da Internet podemos esperar encontrar em Burkina Fasso, que tem 5,5 aparelhos de televisão e 2 telefones para cada mil pessoas?

Por enquanto, as implicações diretas da Internet para os países em desenvolvimento são mais um reflexo de sua origem, enquanto rede a serviço de acadêmicos sérios, do que das características comerciais e de entretenimento que ela adquiriu desde então. A Índia, por exemplo, tem uma das maiores populações de língua inglesa do mundo e (fato que não é apenas coincidência) uma das indústrias de software que está crescendo mais rapidamente. Ainda vai demorar para o estudante de classe média ou a dona de casa média em Calcutá acessar a Internet rotineiramente, mas esse acesso já é uma ferramenta comum dos info-empresários inovadores de Bombaim e Bangalore.

Com a cibercultura, exprime-se a aspiração à construção de um liame social, que não se fundaria nem em vínculos territoriais, nem em relações institucionais, nem em laços de poder, mas na reunião ao redor de centros de interesse comuns, no jogo, na comunhão do saber, no aprendizado cooperativo, nos processos abertos de colaboração. O apetite pelas comunidades virtuais depara-se com um ideal de relação humana desterritorializada, transversal, livre.

Folha de S.Paulo, Caderno mais!, p. 6, 17 de julho de 1994, entrevista com o editor Howard Rheingold, da revista californiana "Whole Earth Review”.

 

 

Pierre Lévy, no livro A Inteligência Coletiva, busca uma compreensão mais arejada das redes telemáticas que, aparentemente, vão dando o tom neste final de século.. Se "A Inteligência Coletiva" é importante pela seriedade com que discute as ligações entre o ser humano e as redes eletrônicas, Lévy busca entender os mecanismos que estão por trás desse processo que podemos chamar de telematização da sociedade contemporânea. O que ele propõe, em resumo, é o estabelecimento de um novo contrato social em que as recentes "tecnologias da inteligência" favoreçam a constituição de uma nova humanidade. Dito de outra maneira, Lévy busca entender as redes telemáticas atuais sob a perspectiva da mercadoria, construindo aí uma possível passagem para um saber coletivo, democratizado e altamente sofisticado.

No capítulo, "O Espaço do Saber", discute-se justamente a emergência desse novo espaço, confrontado a outros três, ligados a disposições e a momentos sociais distintos (a terra, o território e o espaço das mercadorias). Para tanto, Lévy não hesita em lançar mão de diagnósticos sobre a situação atual. Nesse sentido, ao longo do livro o autor coloca em pauta elementos que descrevem –se não completamente, ao menos em grande extensão – o ciberespaço, suas conseqüências sociais e suas condições de contorno culturais. A emergência e a construção de novos paradigmas de inserção do ser social são alinhavados com bastante acerto. E sublinhe-se a diferença entre a emergência e a construção desses novos paradigmas (o que se traduz por um esforço consciente de forjar uma nova sociedade ou, como diz Lévy, uma nova humanidade). Ao mesmo tempo, é colocada a importante questão da democracia (de uma tecnodemocracia), como possibilidade que se abre para nós todos de fazer surgir uma nova forma de ser social e de saber coletivo.

As pessoas se vêem cada vez mais tomadas de pânico diante das respostas inseguras dadas a estas perguntas. Isto explica, talvez, entre outras coisas, o renascimento da fé religiosa nas suas mais diferentes formas (o avanço sem precedentes na história, da fé televisiva e virtual dos mais diferentes pastores eletrônicos da atualidade), que, poderíamos concluir, se assemelha a uma fuga da incerteza e do medo para o conforto da religião, e tudo isto em um momento em que – seria possível supor –, a ciência atravessa um turbulento avanço (clonagem, acelerador de partículas, tele-transporte da matéria etc.), o que deveria colocar a religião cada vez mais no ostracismo.

Na condução racional do mundo de hoje em benefício das gerações futuras, o homem tem tarefa de aliviar suas aspirações, de definir possibilidades e de estabelecer novos objetivos.  Mas o projeto de civilização da sociedade contemporânea e das sociedades futura depende dos rumos que os homens derem às suas ações presentes, sem esquecer os acumulados no passado. Assim, o tempo não mais se divide, mas, sob a influência da ciência, se acrescenta.

O que distingue o passado do futuro, passando pelo presente, é que o valor ideológico da ciência se modificou, podendo tal modificação exprimir-se como segue: “Quando o Estado se justificava religiosamente, o céu estava incluído no tempo da religião; hoje, quando o Estado quer justificar-se cientificamente, o céu está no espaço da ciência” (Rothe, 1973, p.22).

 

A acumulação dos conhecimentos no espaço-tempo unificado pela comunicação

 

 

 

“A mais perigosa de todas as ilusões é a
de que há apenas uma realidade.”
Paul Watzlawick, How Real is Real ?

 

 

A simples acumulação de conhecimentos científicos e tecnológicos não põe em destaque as transformações que se verificam neste campo, a partir da Revolução Industrial.

O somatório da acumulação dos conhecimentos foi um processo lento até o início deste século, quando, por causa da guerra, com a aceleração do processo de produção, foi substituído pelo poder econômico nas relações industriais e comerciais.

A lei, segundo a qual a ciência precede a tecnologia e a tecnologia precede a indústria, justifica as razões pelas quais a acumulação secular da ciência não determinava a necessidade de sua aplicação. Se considerarmos que a demanda industrial ou os meios de produção de massa nasceram da multiplicação do próprio processo industrial, constataremos que um círculo vicioso começou a formar-se no tocante à antecedência das necessidades da indústria e/ou da ciência da tecnologia.

A acumulação de conhecimentos determina a mudança de valores e de símbolos, que assumem uma significação diferente em determinado momento e em determinado espaço.  Esta mudança é perpetuada por segmentos da sociedade que, pela sua própria natureza, é autodestrutora de suas estruturas anteriores.  Ao contrário, a ciência e a tecnologia estão de tal maneira integrada uma à outra que esse fato confirma o princípio segundo o qual: “A ciência exige cada vez mais técnica e a técnica cada vez mais ciência” (Janne, 1971, p.16).

A unificação do espaço-tempo significa que os espaços se tornam simultâneo em relação ao tempo, tornando presente o que está distante, unindo o lócus e o spatium através da comunicação.  Esta revolução é chamada, por alguns, sociedade da informação, que conduz a um estado geral de criatividade intercelular humana florescente, por oposição à sociedade, dita de informação, o nome de sociedade quaternária, em que predominam a ciência e a tecnologia, pois ela possui uma função que vai além de um simples complexo de sistemas de comunicação.

Assim é que a ciência e a tecnologia estão presentes, desde a microbiologia até a construção espacial.  A sociedade de informação nada mais é do que um instrumento da comunicação que possui uma dose grande de ciência e de tecnologia.

Afirmamos que a ciência e sua produção são materiais, mas que a tecnologia, que é seu produto, é tão material quanto o é a produção da informação.  Nós dizemos produção não é indústria, porque esta não caracteriza senão um setor, o secundário, enquanto os outros têm como característica a produção, como é o caso do primário, do terciário e do quaternário; este último tem, além do mais, como característica a produção criativa, totalmente imaterial, e se materializa pelo uso.  “O instrumental das tecnologias de telecomunicação e de informática podem contribuir para aumentar nossa capacidade de oferecer soluções aos problemas que existem além das nossas limitações de tempo e espaço” (Yonezi Masuda1982, p.90,), dando à concepção as dimensões de divisão global jamais conhecida antes.  Segundo Masuda, “o espaço global, diferente do espaço geográfico convencional, informacional, está ligado pelas redes de informação. É um espaço sem fronteiras regionais. Quando esse espaço informacional se expande em proporções globais temos, então, o espaço informacional global, formado pela infra-estrutura global de informação, composta por linhas de comunicação e de computadores ligados entre si ” (idem).

A informação ajudou-nos apenas a ter uma visão do globalismo que prevalece sobre os interesses locais, regionais ou nacionais.

 

Em busca de novas fronteiras

 

 

 

“Se eu não sei que eu sei, penso que não sei.”

R.D. Laing, Laços.

 

 

Debatemos de frente com o ímpeto expansionista do homem, onde, hoje, é muito difícil separar realidade e ficção. As tendências explorativas mostraram novos continentes e levaram o homem à Lua. Atualmente, estão ocupando a órbita terrestre, o continente da Antártida, ensaiando hábitats interplanetários e submarinos e admitindo incursões às camadas inferiores da Terra.

Mas, a par das possibilidades futuristas, hoje, face aos acontecimentos já consumados, é necessário debater um grande número de questões:

Como será feita a divisão das descobertas na Antártida? A Lua pode ser território de algum país? O tráfego de satélites deve ser livre? O Lucro das atividades orbitais privadas deve ser tributado por todos os países ? Alguma empresa tem o direito de passar com um satélite por sobre a sua casa, mesmo que em órbita superior aos mil quilômetros? Deveremos reestudar o conceito de território, e o de soberania e o de Estado? Quem pode dirimir os conflitos privados em órbita? Os eventuais "engarrafamentos" de freqüência podem gerar responsabilidades em caso de prejuízos? As atividades de visualização poderão constituir invasão de privacidade ou ameaça à soberania? Haverá risco de efetiva redução do livre-arbítrio? A proliferação de sinais eletromagnéticos provocará danos ambientais? Riquezas do fundo do mar são particulares, públicas nacionais ou públicas internacionais? O município alagado tem direito a qual parcela dos lucros da hidrelétrica? Atividades de exploração e pesquisa podem ser consideradas de utilidade pública internacional, ou essencial à humanidade?

São questões atuais. Principalmente quanto aos satélites, cuja explosão está em pleno andamento, a todo vapor: As maiores empresas de comunicação do mundo prometem: dentro de dois anos, começarão a circundar o planeta mais de 1.000 novos satélites, transmitindo sinais de telefone, fax, tevê e ligando computadores. Hoje, estão em órbita apenas 150.

Está caminhando uma estrondosa mudança das comunicações, cercada de investimentos privados e de iniciativas particulares.

Pois a grande estrada da informação que se avizinha - e da qual a internet é apenas um pálido esboço – colocará em nossas mãos, diante dos nossos olhos, boa parte do acervo de cultura e tecnologia da humanidade, e o acesso quase direto às forças vivas desse conhecimento. Cidadãos do mundo, enfim. Uma coisa é certa: a nova infra-estrutura que estamos construindo (a primeira da economia globalizada) amplificará tudo o que a sociedade tem de bom e de ruim. E, depois, produzirá novas formas de relacionamento pessoal, redefinirá as cidades (teremos um endereço físico e um endereço eletrônico), revolucionará a escola e viabilizará tipos de empresas que apenas começamos a imaginar.

Seus maiores perdedores serão os intermediários de todos os tipos: agentes, representantes, corretores. Ou os indiferentes. Ou os que não souberem utilizá-la. Seus principais beneficiários serão os detentores de informações. Ou os que souberem utilizá-las. O paradoxo disso tudo é que o casamento da informática com as telecomunicações (consumado pelo cybersex!) é, sob outros aspectos, perfeitamente tradicional: indissolúvel, sem desquite ou divórcio. E não há morte que as separe.

Identidade, domicílio, capacidade, moeda, dano, registro, documento, pagamento e diversos outros institutos jurídicos básicos surgem dentro do ciberespaço, a dimensão identificada por William Gilson, formada pelas redes de computadores, onde tudo acontece virtualmente, diálogos, compras, pesquisas, trabalho, etc. Anote o endereço da agência bancária de maior futuro no mundo: bank.digicash.com. Onde fica ? Virtualmente, no mundo todo.

Tratou o homem de, imediatamente, inventar o dinheiro cibernético, a moeda virtual, o "E-cash", visando garantia das operações em rede. E o direito das obrigações, como vai definir o local do pagamento? Sim, pois tendo em vista a alteração dos referenciais de dia (horários) e distância, entre outros, o local de pouco importará, e, eventualmente, será mais cômodo um contato com outro continente do que com o vizinho físico.

 

Há razões consistentes para isso?

 

 

 

“O que não podemos pensar, não podemos pensar;

portanto nós não podemos dizer o que não podemos pensar.”

Ludwig Wittgenstein, Tratado de filosofia lógica.

 

 

No ano passado (1997), os negócios feitos via internet usando apenas cartões de crédito como pagamento chegaram a 1,7 bilhão de dólares. A previsão para 1998 é de 3,6 bilhão de dólares

Arnold e Bowie (1986) recorreram ao dicionário, no qual encontram as definições de inteligência e de artificial. “Inteligência é a capacidade de adquirir e de aplicar conhecimentos. A faculdade de pensar e raciocinar. A tarefa de acumular informação. E artificial é definida como aquilo feito pelo homem, em vez de ocorrer na natureza. Feito em imitação a alguma coisa natural. Se associadas estas duas definições, ter-se-á uma definição trabalhável de Inteligência Artificial: 'Capacidade de adquirir e aplicar conhecimentos implementada pelo humano', e, adiante, ‘A definição preferida depende da pessoa. Depende, sobretudo, dos interesse e objetivos da pessoa. Nós preferimos dizer que IA é o resultado da aplicação de técnicas e recursos, especialmente de natureza não numérica, viabilizando a solução de problemas que exigiriam do humano certo grau de raciocínio e de perícia. A solução destes problemas com recursos tipicamente numéricos é muito difícil. Por isso é que IA caracteriza uma nova era da computação, a era do processamento não numérico.", p. 21.

Hoje, o mundo todo é o campo de ação dos fluxos que se expandem com suporte nos novos sistemas de engenharia. Passamos também de fluxos que são curtos no espaço e que se exercem em áreas limitadas a fluxos que abrangem frações do território cada vez maiores.

No Brasil, a malha programada pelo estado foi um elemento fundamental para a organização do território por meio da extensão das redes no espaço nacional.

O transporte de cargas hoje feito em grandes navios, ferrovias, rodovias e dutos são tão diferente que, na maioria das vezes, não significa mais problemas para o comercio mundial. Mesmo o frete aéreo é relativamente barato e tão fácil que até peixes, frutas e flores são transportados a longas distâncias, de um hemisfério para outro.

O comércio internacional precisa redes globais de transporte e circulação de informações. Se o transporte – incluindo-se aqui os meios de armazenamento e refrigeração – não estiver disponível, tanto a população, como o consumo sofreram diretamente.

Existem relações entre o traçado e a morfologia das redes, a natureza do território que atravessam as características tecnológicas e de operatividade de cada meio. O traçado das redes depende decisivamente da organização territorial e constitui um dos instrumentos essenciais, por parte do Estado para o domínio do seu espaço geográfico.

A voz humana, dados, textos ou imagens podem agora ser transmitidos para qualquer lugar, a qualquer tempo, e na velocidade da luz. A transmissão de informações sobre preços e taxas de juros é instantânea e permite a organização e o desenvolvimento do mercado de capitais em escala global. A bolsa de valores de Londres abre antes do fechamento da bolsa de Tóquio, e quando Londres está encerrando o seu pregão, a bolsa de Nova Iorque está em plena função, fazendo com que o dinheiro execute todos os dias uma verdadeira viagem de circunavegação do planeta, buscando valorização nos diversos mercados financeiros espalhados pelo mundo.

Como os mercados financeiros mundiais se integraram muito nos últimos anos, a informação financeira se transformou em uma mercadoria extremamente valiosa. Empresas multinacionais são particularmente vulneráveis às mudanças nos mercados financeiros, pois dependem do comportamento de diversos mercados de câmbio que operam simultaneamente. Por isso, grandes quantidades de dados circulam entre os computadores situados em diversos lugares do mundo, controlando imensos volumes de dinheiro e ações.

No Brasil, a organização espacial das redes de circulação de mercadorias, de distribuição de energia elétrica e de telecomunicações constituiu um indicador, mesmo que  superficial, dos efeitos do processo de modernização sobre o território, na maneira em que foram transformadas estruturas espaciais antiquadas e construídas novas formas mais adequadas ao processo de produção à gestão da empresa moderna.

A rede de circulação de mercadorias, expressa na malha rodoviária nacional, delimita até certo ponto à área de mercado integrada. Não se trata propriamente de uma estrutura montada a partir da indústria, reflete as heranças do passado agrário – mercantil, quando assumia a forma de “bacias de drenagem” destinadas a integrar as áreas produtivas aos portos litorâneos, tal como a rede ferroviária. Sobre essas “bacias” superpõem-se o traçado dos grandes eixos nacionais, que convergem para o centro manufatureiro no centro sul do país, como por exemplo a rodovia federal BR-116, antiga Rio-Bahia, que foi o primeiro grande eixo de interligação entre o nordeste e o núcleo industrial do sudeste.

Finalmente, a rede nacional de telecomunicações, baseada no sistema de microondas, mostra que os maiores aglomerados urbanos estão interligados no que diz respeito a circulação rápida de informações a longa distância. A construção dessa rede, iniciada e concluída durante a Ditadura Militar, mostra os efeitos da centralização dos processos decisórios na cidade mundial, e atende, principalmente, às demandas do setor financeiro, que depende de ligações rápidas e confiáveis a longa distância para operar com competitividade.

A principal observação que deve ser feita quando à rede de telecomunicações é que, desde o momento de sua concepção, já é, necessariamente, uma rede nacional. Em poucas palavras, é a materialidade espacial da forma mais avançada de operação capitalista: a empresa financeira multinacional. É nesse sentido que se pode compreender o rápido desenvolvimento do sistema nacional de comunicações alonga distância que, em duas décadas, interligou todo o território nacional sem que a grande maioria da população tivesse acesso sequer a um aparelho telefônico.

 

Esquizofrenia tecnológica

 

 

 

“Só pessoas infantis imaginam
que o mundo é o que pensamos que ele é.”
C.G. Jung, Psicologia Analítica.

 

 

Se as mudanças econômicas e institucionais em curso no Brasil têm criado novas situações – nem sempre auspiciosas – nas áreas da produção, do consumo, do emprego e dos serviços geridos pelo Estado, ainda está por se avaliar as repercussões do Real na indústria do entretenimento.

Nos últimos quatro anos (1994/97), 6,3 milhões de domicílios brasileiros receberam seu primeiro aparelho de Tevê. A venda de televisores atingiu, nesse período, 28 milhões de unidades.

Salto semelhante ocorreu no mercado fonográfico, com um boom de vendas de aparelhos de som e CDs.

Um mercado dessa magnitude não poderia ser, evidentemente, desprezado pela indústria cultural: o que essa gente quer ver e ouvir?

A resposta mais fácil, certamente não a única, já foi dada sob a forma de produções musicais e televisivas de apelo popularesco.

No caso da Tevê, a divisão social passou a projetar-se cada vez mais na separação entre canais pagos e abertos. A crescente oferta de Tevês por assinatura vai oferecendo às classes médias novas opções e liberando (ou obrigando) as grandes redes nacionais para a disputa do mercado popular.

Vai-se criando, entretanto, uma crescente massificação de gêneros abastardados, simplificados e formatados para o consumo em larga escala, um cardápio fonográfico rigorosamente kitsch. Nesse cenário, a música de qualidade, que já ocupou a linha de frente do consumo, vai sendo empurrada para seus segmentos específicos.

Certamente não é o Brasil o único país a explorar o grotesco, o mau gosto e o sensacionalismo para conquistar público na mídia ou na indústria do entretenimento.

O fato, entretanto, de que seja o Brasil o país em questão torna o tema ainda mais interessante: que novos padrões de gosto serão erigidos por essa sociedade emergente de massas analfabetas, de periferias desenraizadas, de pouca leitura e enorme adesão à tevê?

 

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*Professor de geografia e práticas instrumentais em cursos livres de especialização e treinamento de professores, autor de livros didáticos e paradidáticos pela Editora Módulo, IESDE, Filosofart, BASE, Colégio Expoente. - voltar

Referência: CROCETTI, Zeno Soares. Lugar fora do espaço?, O. Revista Paranaense de Geografia, 3, Curitiba, pp. 70-88, 1998

© Associação dos Geógrafos Brasileiros - seção Curitiba

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