resumo

A revolução técnico-científica informacional provocou um grande número de alterações na vida humana. A maior foi a admissão, em definitivo, da máquina no cotidiano. A cidade vai ser o símbolo do espaço-temporabilidade dessa era pós-industrial, e, então, a síntese avançada de toda sua contradição. O longo processo que constituiu essa nova cidade, essa nova forma de sociedade, na qual a desterritorialização que desenraízou os seus moradores do campo para amontoá-lo no território da cidade, assenta-se como "nova realidade" econômico-social e cultural, que ganha escala planetária no final de século XX. O capitalismo penetrou e impôs-se como nova ordem a todo o mundo. Nesse início de um novo milênio, a humanidade constrói um mundo cada vez mais urbanizado e uma sociedade intensamente baseada na rapidez dos fluxos digitais de informação. Que civilização vai nascer dessa comunhão da selva de pedra com a cidade virtual? Esse texto tateia respostas para essa pergunta. Considero esse tema complexo e ainda pouco explorado. Sendo estas análises provisórias no conjunto do conhecimento, as mesmas podem ser alteradas e aprofundadas posteriormente, com a continuidade dos estudos no campo das relações da sociedade e das tecnologias.

                    Palavras-chave: Geografia urbana, cidade, informatização, reestruturação tecnológica,
                                              desterritorialização, manipulação, não-espaço.

 

Introdução

"Um mundo feito de redes desafia, em muitas frentes, as Questiona as velhas concepções de espaço e poder. Enquanto as antigas economias de mercado se formaram a partir de ordenações espaciais e temporais da vida das cidades, as economias de hoje baseiam-se numa ordenação lógica ou ‘virtual’ da comunicação eletrônica, numa nova geografia de conexões e sistemas, de centros de processamento e controle (...) Redes de computadores, cabos e comunicações via rádio governam (agora) o destino das coisas, como elas são remuneradas, e quem tem acesso a quê. As manifestações físicas de poder - paredes, fronteiras, auto-estradas e cidades - foram sobrepostas por um mundo ‘virtual’ de sistemas de informação, bases de dados e redes. As edificações estão sendo redefinidas em função de suas posições nas redes à medida que ‘casas inteligentes’ se juntam a escritórios eletrônicos e fábricas automatizadas. 
"
Geoff Mulgan, Communication and Control (1991:3)

 

        A cidade é a concentração física que ajuda na superação das restrições de tempo pela minimização das limitações de espaço. As telecomunicações, por sua vez, superam as restrições de espaço pela minimização de tempo, interligando pontos distantes à velocidade da luz. Dessa combinação resulta que a vida urbana parece hoje mais volátil e acelerada, mais incerta, mais fragmentada e mais difícil de entender do que em qualquer outro momento desde o início do século passado. Ao mesmo tempo, a economia globalizada adota as grandes cidades como centros de controle, sem contudo estancar a tendência paralela de descentralização dos serviços de rotina para fora das metrópoles. Em função dessas mudanças, Graham[1] considera que as grandes áreas urbanas são, fundamentalmente, "centros de troca de informação".

        Já Leo Bogart[2], sociólogo e consultor da imprensa estadunidense, não se espanta com tais conclusões. Segundo ele, há uma conexão histórica entre o desenvolvimento da mídia – em particular os jornais – e o desenvolvimento urbano. As cidades não podem existir sem alguma forma de comunicação pública. Os meios de comunicação, ao atenderem a diversos grupos de interesses específicos e distintos, servem para estabelecer as conexões necessárias entre os diferentes setores que compõem uma comunidade, compartilhando informações e idéias, ao mesmo tempo em que servem também como instrumento de divisão social.

 

Vida urbana, espaços teletrônicos

“Acredito na guerra civil de uma natureza ligada à globalização, à seleção de alguns indivíduos, e depois há essa imagem das pessoas abandonadas porque são inúteis, inúteis como produtores diante da automação das máquinas. Inúteis como procriadores porque há a inseminação artificial e inúteis até como soldados, veja-se o que acaba de acontecer na guerra de Kosovo... Não se abateu um único soldado, nem há necessidade de soldados, há aí uma maneira de tornar o homem inútil e abandoná-lo e de fazer dele um homem ocioso. E um homem ocioso é um homem que se torna violento. As férias prolongadas? Isso é um sonho dos sociólogos. (...) O tempo não é alguma coisa que se mede com um pêndulo. O tempo é alguma coisa que se constrói juntos, numa família, numa tribo, num lugar. O tempo é ecossistema. O tempo é um espaço de tempo, não se pode falar do tempo como emprego do tempo sem falar do emprego do espaço, isto é, a socialidade que envolve essa temporalidade. Ora, o tempo ganho, o tempo rápido, o tempo do ao vivo (em tempo real), o tempo efêmero, o tempo das cotações não é um tempo que socializa, é um tempo de ruptura, ‘dessocializante’. Não é um tempo longo de composição, de concentração, de reflexão, é um tempo de reflexo e de reação que se torna cada vez mais violento. A velocidade é uma violência.” [Excertos de Virilio, 1999: 61-69 e 127-139.]

        E esse é um dos grandes desafios do novo ambiente que se forma com a era da comunicação digital. Velhos e novos meios de comunicação não podem perder seu compromisso de coesão social para sociedades instruídas, da mesma forma como devem evitar cair nas armadilhas da elitização. A tarefa é maior, em países como o Brasil, em que a distância entre aqueles que têm acesso às novas tecnologias e os que não têm, aumenta ainda mais as grandes desigualdades sociais. À medida que o mundo está ficando cada vez mais urbanizado, computadores de última geração e sistemas telemáticos digitais vão penetrando em todas as áreas da vida urbana. As duas características que definem a civilização contemporânea, embora questionáveis, são os saltos paralelos rumo a um planeta mais urbanizado e a uma sociedade cada vez mais baseada na rapidez dos fluxos eletrônicos de informação. A maioria das mudanças contemporâneas nas economias, na cultura e na vida social das cidades parece estar relacionadas à aplicação de novas infra-estruturas de telecomunicações e serviços, ligadas a computadores ou a equipamentos computadorizados, visando a formação de redes ‘telemáticas’. Tudo isso transcende, quase que instantaneamente, as barreiras espaciais, de forma a reordenar as limitações de tempo e espaço entre e intra cidades. Pequenos pontos e lugares, totalmente separados, estão sendo interligados mundo urbano afora, com um mínimo de tempo diferido - ou seja, quase que se aproximando do ‘tempo real’. Fluxos globais de voz, correio eletrônico, dados, vídeo, fax e sons estão aumentando exponencialmente, fazendo com que as cidades fiquem cada vez mais atadas a extensas redes de comunicação humana, a fluxos de serviços e mídia, aos fluxos de força de trabalho baseados no ‘teletrabalho’, e aos fluxos de dinheiro eletrônico.

 

A adequação das cidades à nova economia

“Vivemos uma ameaça de desrealização, o que quer dizer que de tanto viver dentro das telecomunicações, através do mundo virtual da Internet, corre-se o risco de desapropriar-se do mundo real. (...) A multiplicação dos alucinógenos é um fenômeno de busca de desrealização. Ora, hoje temos uma droga eletrônica, criamos o delírio de nossa época, a busca de escapar do real. (...) Assim criamos os esportes radicais. Os indivíduos agora não procuram mais praticar um esporte para desenvolver seus corpos, mas para tentar a morte. Para brincar com a morte como no circo romano. E há aí uma patologia mascarada.” [Excertos de Virilio, 1999: 61-69]

        Para Krugman, do MIT, o velho entendimento sobre as razões da existência das cidades, sua importância e a lógica de seu crescimento está ultrapassado. "A concentração espacial já não cria necessariamente condições favoráveis para um crescimento econômico que sustente uma concentração ainda maior de pessoas", diz ele, na introdução de seu mais recente livro, escrito em conjunto com, Masahisa Fujita e Anthony Venables, sobre a nova geografia das cidades, The Spatial Economy: Cities, Regions and International Trade, EUA, 1999.

        Sua preocupação é entender por que cidades grandes e ricas entram em decadência e por que há crescimento populacional, em algumas áreas, sem o correspondente crescimento econômico. "Está claro que as concentrações urbanas se formam e sobrevivem porque facilitam o crescimento econômico. Mercado consumidor atrai empresas que criam empregos. Assalariados tornam-se novos consumidores, e assim o lucro delas aumenta. O que precisamos entender é como e quando esse mecanismo muda".

        Há um consenso entre as pessoas que se preocupam com a geografia econômica. Todos concordam que a cidade é a estrutura mais importante no mundo de economia globalizada. Em breve, os controles da economia internacional estarão centralizados em algumas cidades ricas, modernas, bem resolvidas. Nas outras, se o crescimento desordenado continuar, a vida será um caos. Por isso, é preciso reverter o processo de urbanização descontrolada, sob pena de a bolha urbana explodir. "Não sabemos como será o futuro, mas sabemos que no próximo século estaremos vivendo num mundo fortemente urbanizado com enormes focos de pobreza", afirma Jorge Wilheim, arquiteto paulista que organizou a conferência da ONU sobre assentamentos humanos (Hábitat II), em 1996.

        As cidades estão passando por um período de transição especialmente difícil. Têm cada vez mais gente e menos emprego, menos saúde, menos qualidade de vida. Elas eram centros que viviam da indústria. Surgiram com essa função no final do século XVIII. Agora, o fenômeno acabou. As indústrias querem distância das cidades, dos sindicatos, do trânsito, dos terrenos de preço alto. Estão abandonando os grandes centros urbanos e deixando muita gente sem trabalho. Na China o problema é tão terrível que o governo está construindo 200 novas cidades, pelo interior do país, com estrutura econômica para absorver os trabalhadores agrícolas desempregados no campo e barrar a migração. "Os sistemas urbanos estão passando por uma profunda mudança, tão importante quanto a que aconteceu quando da formação das cidades industriais", diz Guido Marinotti, professor de sociologia urbana na Universidade de Milão, na Itália.

        Historicamente, as cidades sempre foram geradoras de desenvolvimento econômico, social e cultural. Como centros industriais e comerciais, elas concentraram a prosperidade e o poder político. No momento, dois problemas desequilibram esse quadro. O primeiro é a enorme transformação tecnológica que revolucionou a economia mundial, derrubando fronteiras, encurtando distâncias e

        Segundo pesquisas feitas pela ONU, mostram que:

        As razões que levaram a montadora de carros Volkswagen a se instalar em Barcelona são exemplares. Entre as cidades que a montadora analisava na Europa, todas tinham universidade, aeroporto, uma série de pequenas empresas que poderiam tornar-se fornecedoras de peças. O diferencial de Barcelona foi a tranqüilidade, a certeza de que se pode passear à noite pelas ruas num ambiente agradável, repleto de árvores e com bares e restaurantes de qualidade, sem risco. "A cidade tem de oferecer produtos urbanos que as pessoas e as empresas queiram comprar", diz o arquiteto espanhol Jordi Borja, de Barcelona. "E hoje as pessoas querem conforto, praticidade, segurança".

        As cidades continuam crescendo porque oferecem, em média, maiores benefícios econômicos e sociais do que as áreas rurais. Facilitam a difusão dos produtos, das idéias e dos recursos humanos. Como acumulam muita gente, podem oferecer educação de melhor qualidade e produtos culturais mais elaborados. Houve quem pensasse que, com o surgimento do computador e com as novas tecnologias de comunicação, as pessoas fossem abandonar as aglomerações e se retirar para o campo, para trabalhar isoladas. Engano. "As cidades são aceleradoras de partículas. São fontes de inovação artística e tecnológica. É nelas que tudo acontece e por isso não desaparecerão jamais. Mas elas precisam mudar, e já estão mudando", diz Raquel Rolnik, arquiteta que cuida de uma organização não governamental, a Polis, de São Paulo, cuja função é proteger o meio ambiente urbano.

 

Veja: Que fazer numa metrópole como São Paulo ou Rio de Janeiro, que vivem à beira do caos?

Glaeser – Alguns diriam que essa pessoa deve deixar a cidade grande. Eu digo não, as pessoas podem se espantar, mas acho que a principal solução é não se preocupar com a pobreza. A pobreza não pode ser tratada na esfera municipal, mas federal. Se um prefeito, concentrar seus esforços em resolver o problema das favelas, ele vai acabar atraindo gente de outro lugar mais pobre. Quem trabalhar melhor, em vez de aumentar a qualidade de vida de seus moradores, estará atraindo mais miséria para o município.

        São três as ações principais para o prefeito. A primeira é o combate à poluição, o que pode ser feito por meio de leis obrigando a instalação de filtros nas indústrias e a produção de carros menos poluentes. A segunda é a melhoria do trânsito. Aí não há opção a não ser cobrar daqueles que causam o congestionamento nas regiões centrais. Pode ser por meio de pedágio, mas esse tipo de idéia só funciona se o dinheiro reverter em investimentos no transporte público. O terceiro e maior problema é a criminalidade.

          [Entrevista de Edward Glaeser, da Harvard, para revista Veja n. 1608, de 28 de julho de 1999.]

 

O Panótico Urbano do Século XXI

“Falou-se muito nos anos 70, que vivíamos na civilização da imagem. Mas eu acho que vivemos na civilização da ótica, isto é, no desenvolvimento da perfeição do mundo através das mídias e através das óticas cada vez mais sofisticadas. (...) Quando queremos ver, queremos ver cada vez mais, há uma amplificação que se desenvolve hoje, em escala mundial. Há uma grande ótica planetária, uma ótica não ótica, que vai modificar as relações humanas, políticas, sociais, econômicas e, ou seja, são os sistemas de transmissão por satélites, as capacidades dos satélites espiões, das tecnologias militares de controlar incessantemente os territórios e a ação dos homens nas cidades através das câmeras. (...) Nossa relação com o mundo está ligada a nossa visão de mundo. Por isso a ecologia das imagens está sendo revolucio-nada pela grande ótica. Uma imagem vale mais que um longo discurso, tem um poder de convicção que é o propósito da ótica. 60% da informação nos vêm pelos olhos.” [Excertos de Virilio, 1999: 15-24]

        Toda essa transformação significa que, à medida em que iniciamos um novo milênio, as velhas idéias e premissas sobre o planejamento, o desenvolvimento, e o gerenciamento das modernas cidades industriais - estejam elas nos chamados "Norte" ou "Sul" - parecem ser cada vez menos úteis. Todas as noções geralmente aceitas sobre a natureza do espaço, do tempo, da distância e dos processos da vida urbana são, igualmente, questionáveis. A vida urbana parece mais volátil e acelerada, mais incerta, mais fragmentada e mais difícil de entender hoje do que em qualquer outro momento desde o final do século passado.

        Então, fica claro que as cidades contemporâneas não são apenas densas aglomerações físicas de edifícios, de entroncamentos de redes de transporte, ou os principais centros da vida econômica, social e cultural. Deve-se considerar, também, o papel das cidades como sistemas eletrônicos que compõem as redes de telecomunicação e telemática. As áreas urbanas são os centros dominantes de demanda das telecomunicações e os centros nervosos de irradiação das grades eletrônicas. De fato, parece existir uma conexão forte e sinérgica entre as cidades e essa nova infra-estrutura de redes. As cidades – o maior artefato físico construído pela civilização industrial – são hoje verdadeiras "casas de força" das comunicações, cujo tráfego flui pela rede global de telecomunicações - o maior sistema tecnológico até hoje concebido pelo homem.

        Construções permanentes em espaços e edifícios urbanos, interligadas a redes e "espaços" eletrônicos poderão constituir-se na definição do que seja edificação no urbanismo contemporâneo. Juntos, esses espaços eletrônicos levam a um universo escondido e paralelo de movimentadas redes eletrônicas. Completamente livres das restrições de tempo e espaço, elas interagem e influenciam a dinâmica tangível e conhecida da vida urbana, 24 horas por dia e em qualquer escala geográfica. Assim, viagens de carro, trem, avião ou ônibus, e os fluxos físicos das águas, das "commodities", dos produtos manufaturados e da energia são suportados por um "mundo de redes" (networld) paralelo e eletrônico. Elas monitoram, formatam e controlam os fluxos físicos numa base de tempo real. Um congestionamento de trânsito transforma-se, agora, na plataforma de lançamento para incontáveis conversações eletrônicas e interações através da telefonia móvel e dos computadores.

        O mundo aparentemente sem vida de um conjunto de escritórios esconde "edifícios inteligentes" - um sistema dentro de um universo eletrônico por onde fluem, 24 horas por dia, fluxos de capitais, serviços e força de trabalho via redes corporativas telemáticas.

        Em muitas cidades, a rotina diária dos moradores urbanos se dá através de um conjunto contínuo de "imagens digitais" (Obs. No Rio de Janeiro, nas praias de Copacabana, Flamengo, entre outras e em Curitiba no calçadão central na Rua das Flores, foram instaladas no final de 2000, câmeras para o monitoramento 24 horas continuas do fluxo de pedestres.) captadas por um amplo sistema de rastreamento – câmeras de circuito fechado de Tevê, sistemas de transação eletrônica, informática para o transporte rodoviário, dentre outras. Arredores ricos e encastelados nas grandes cidades como Los Angeles, Rio de Janeiro, Curitiba e São Paulo dependem de portas e altos muros, interligados a sofisticados sistemas eletrônicos de vigilância. O mais modesto dos subúrbios de muitas cidades se configura, agora, num sistema dentro da crescente cacofonia eletrônica dos fluxos globais de imagens e meios, além de seus moradores assumirem um papel participativo nas comunidades virtuais, quase que sempre numa escala global. E mais, as políticas e estratégias urbanas rumam cada vez mais para o delineamento e teste seja do espaço urbano, seja do espaço eletrônico. Esse nebuloso mundo de espaços eletrônicos concretiza-se através dos fluxos instantâneos de fótons e elétrons que circulam dentro das cidades e através das redes metropolitanas planetárias. Tais fluxos são a base virtual de tudo aquilo que vemos e experimentamos em nosso cotidiano e, embora possamos enxergá-los, poucos realmente se apercebem deles.

        Mas, tudo isso não é um único, interconectado e gigantesco "ciberespaço". Não sem surpresas, esse mundo sombrio de espaços eletrônicos é tão diverso e complexo quanto as paisagens e a vida das próprias cidades. Exatamente como na geografia das cidades, existem muitas segmentações, divisões e conflitos sociais quando da definição e formatação do espaço eletrônico. Poder, ou a sua falta, estão condicionados a acesso e controle, tanto sobre as áreas físicas das cidades quanto sobre os espaços eletrônicos acessíveis via redes telemáticas. Por um lado, existem enormes "buracos negros de informação" e "guetos eletrônicos", especialmente nas mega-cidades do "Sul". Ali, os mais pobres ficam confinados à tradicional vida marginalizada, seja pelo confinamento físico, seja pelo sonho distante de um simples acesso a um telefone. Nesse caso as iniqüidades são notáveis. A maioria da população mundial já se utilizou de um telefone, e estima-se que em Tóquio existem mais telefones que em toda a África[3]. Mesmo assim, por outro lado, existem intensas concentrações de infra-estrutura nos grandes centros das cidades e nos subúrbios de elite, como suporte às emergentes classes corporativas globais e às Corporações Transnacionais (TNCs). E, da mesma forma que o mapa geográfico das cidades, os resultados podem ser "lidos" como reflexos de processos complexos, onde as relações sociais, étnicas, de gênero e poder vão contra o cenário de globalização da política econômica do capitalismo. É também muito fácil para os grupos de elite da sociedade esquecer esse cenário, pois para a maior parte deste planeta, o telefone é um luxo inatingível e temas como "ciberespaço", "Internet" e o "fim das barreiras de tempo e espaço" atingem níveis da mais absurda ficção científica[4].

        Assim, as cidades podem, cada vez mais, ser vistas como centros de cruzamento e interconexão de redes sociais, institucionais e tecnológicas. Ao mesmo tempo em que se estabelecem algumas destas interconexões e sobreposições pelo espaço urbano físico, formando nós na rede, não existem, necessariamente, correlações entre proximidade física e relações significativas, como era freqüentemente assumido pelas antigas idéias sobre cidades. Assim, as cidades estão se tornando mais fragmentadas física, econômica, social e culturalmente. São, então, mais adequadas as combinações complexas da proximidade eletrônica através dos espaços eletrônicos do "reino do não-espaço urbano"[5], onde as proximidades baseadas no lugar físico deverão ser consideradas em paralelo. As pessoas têm ligações sociais mais íntimas com outras que estão do outro lado do mundo, através de grupos de discussão na Internet, mas não sabem o nome de seu vizinho. Uma região de escritórios em São Paulo provavelmente negocia diariamente bilhões de dólares por dia com mercados financeiros eletrônicos em Londres, Nova Iorque e Tóquio, mas não estabelece conexões com as pessoas que estão à sua volta e nas vizinhanças. E a vida cultural das cidades talvez seja mais influenciada pela MTV, captada via satélite de longa distância, do que pela tradicional visão modernista de interação de grupos sociais nos espaços públicos dos centros das cidade.

 

Uma Nova Centralidade das Grandes Metrópoles

        Em 1968, Melvin Webber recomendava: "estamos passando por uma revolução que está retardando o processo social de urbanização de cidades e regiões com situação estabilizada"[6]. Ele previu que, à medida em que as cidades passassem de centros dominados pela manufatura, para centros dominados pelos serviços e pelas comunicações, haveria espaço para o desenvolvimento de uma novo e radical conjunto de dinâmicas geográficas. Tal dinâmica estaria centrada no uso das telecomunicações e do transporte rápido para interligar distâncias entre produtores, distribuidores e consumidores através de formas radicalmente novas. Pierre Beckouche e Pierre Veltz captaram muito bem essas idéias quando argumentam que "de uma maneira global, a velha geografia que vinculava as empresas às fontes de matérias-primas e aos mercados consumidores começou a confundir-se diante de um arranjo geográfico mais complexo, onde o sistema de produção-distribuição ocorreria no espaço, utilizando-se da extensa infra-estrutura de comunicação e de redes, em níveis nacionais e até mesmo planetários"[7]. Surgem, nesse contexto, dois aspectos-chave para o desenvolvimento das economias urbanas: primeiro, a nova "centralidade" das grandes cidades como sistemas e centros de controle da economia globalizada e, segundo, uma tendência paralela de descentralização dos serviços de rotina para fora das grandes cidades.

 

Desenvolvimento Urbano?

        A tendência atual das economias das grandes cidades é estarem baseadas, em primeiro lugar, não nos setores de produção e transporte, mas nos serviços aos consumidores, tais como lazer, compras, a produção, distribuição e processamento de informação e de "bens simbólicos" como serviços de informações, finanças, mídia, educação e publicidade. Atualmente, o comércio mundial de serviços e informação é igual à soma do comércio de bens eletrônicos manufaturados e de automóveis.

        A maior parte dos empregos de primeira linha disponíveis nas cidades são, atualmente, destinados a "profissionais da informação" altamente qualificados, exercendo funções de tomada de decisão, ou funções chamadas "quaternárias". Tais empregos requerem habilidades na manipulação, processamento, agregação de valor e disseminação da informação, do conhecimento e dos símbolos - aquilo que Robert Reich chama de "analistas simbólicos"[8]. A maior parte dessa informação está eletronicamente codificada, computadorizada e transmissível via telecomunicações e telemática. Na Europa, por exemplo, 50% de todos os empregos e 80% de todos os novos empregos originam-se, hoje, em serviços baseados na informação.

        Estes serviços são, hoje, freqüentemente acessados de qualquer lugar do mundo através de grades telemáticas globais, do produtor para o consumidor. Tais tendências trazem implicações profundas para as economias das cidades. Conforme Castells, essa nova "geometria global" de produção, consumo e circulação de informações, "nega o significado específico de produtividade de qualquer lugar fora de sua posição em uma rede, cujo formato muda inexoravelmente em resposta a mensagens de sinais invisíveis e de códigos desconhecidos"[9].

FIGURA 1 - UMA HIERARQUIA DAS CIDADES MUNDIAIS

                        System, Cambridge: Cambridge University Press.

 

        Em função dessas mudanças econômicas, pode-se agora considerar que as grandes áreas urbanas são, fundamentalmente, "cidades de informação"[10], "cidades transacionais"[11], ou "os centros de troca de informação" da economia mundial[12]. Tudo isso está interligado a uma única rede urbana planetária, com as cidades intrinsecamente ligadas, exercendo um conjunto de papéis complementares (ver Figura 1). Mas, todas essas restruturações, visando elevados níveis de intensidade da informação não são meramente uma "força pós-industrial". Na verdade, as cidades estão ficando muito mais "super-industriais" do que "pós-industriais". A crescente complexidade, velocidade e volatilidade que se espera da economia reflete-se no aumento dos empregos para "profissionais da informação" em todos os setores econômicos - da mineração, agricultura e manufatura ao comércio, serviços e governo. O que gostaríamos de ressaltar no restante deste capítulo é que cidades grandes, globalizadas e dinâmicas são, particularmente, fortes centros de "profissionais da informação"[13].

“A cidade é o lugar da atomização da vida, mas, de outro lado, é o lugar onde abrem as perspectivas do encontro, da construção de um sonho comum através das apropriações possíveis a partir de uma trajetória comum de vida. (...) mas pode ser, a ambição, o reencontro e o amor, o pecado e a penitência, é o ‘talvez’ e certamente o certo, é a vida como a morte, é um e outro, é a pirueta, a insolência, a desaparição. (...) É o lugar da verdade nua.  A cidade é o lugar dos conflitos permanentes e sempre renovados, lugar do silêncio e dos gritos, onde o sujeito de encontra porque se reconhece nas fachadas, nos tijolos ou, simplesmente, porque se perde nas formas sempre tão fluidas e móveis.” [Alessandri Carlos, O Lugar no/do Mundo, 1996: pp.146-47.]

        Todas essas tendências nos levam à identificação do surgimento de um grupo fortemente interconectado, os "centros de comando global", que dominam os emergentes sistemas metropolitanos planetários. Podemos identificar aqui três fatores preliminares. Primeiro, a globalização dos mercados e o predomínio crescente das TNCs (Corporações transnacionais, sigla usada correntemente em inglês), com a dispersão pelo mundo das atividades de produção e manufatura, levando a crescentes necessidades de centralização das funções de controle por parte das TNCs. Tais funções estão sendo concentradas nas grandes cidades já que suas localizações reduzem riscos, oferecem o mais amplo leque de oportunidades e limitam as incertezas. Segundo, a maior facilidade na movimentação de capitais e moeda para além das fronteiras nacionais, criou novas demandas para os centros financeiros, através dos quais esses fluxos financeiros podem ser concretizados e coordenados. Terceiro, houve uma restruturação das grandes empresas transnacionais que, agora, sub-contratam uma grande parte de suas necessidades junto a prestadores de serviços como contabilidade, advocacia, seguros, consultoria, serviços de publicidade e propaganda, todos eles em escala global. Tais fatores se mesclam e combinam à necessidade de se manter os contatos face-a-face nas negociações complexas de uma empresa, de forma a alavancar o predomínio dessas cidades. Um fator crítico de sucesso para esses centros de comando global é a concentração de informações segmentadas. Para Mitchelson e Wheeler, por exemplo, Nova Iorque tem "a maior concentração de informações não rotineiras já reunidas num único lugar"[14].

        O mais importante, então, são as fortes incertezas que surgem pela volatilidade, velocidade e imprevisibilidade da economia globalizada. Conforme a argumentação de Michelson e Wheeler, "em tempos de grandes incertezas, algumas cidades adquirem importância estratégica como centros de comando e como produtoras centralizadas de informações de alto nível sobre a ordem econômica[15]. No contexto de uma economia global e volátil, o desenvolvimento, por parte das corporações, de uma ampla gama de funções descentralizadas, faz com que se espalhe pelo mundo uma centralização paralela de controle corporativo e de coordenação de funções sobre esses centros globais de comando. Assim, a descentralização das rotinas e das funções de manufatura dentro das TNCs requer, efetivamente, a centralização do controle e das atividades dos escritórios centrais nos centros de comando global. Citando Saskia Sassen, "é exatamente por causa da dispersão territorial, facilitada pelas telecomunicações, que o agrupamento de determinadas atividades centralizadas tem sido bastante crescente"[16]. Tudo isso estimula o surgimento de serviços de alto nível em contabilidade, bancos, leis e outros, que servem para um conjunto de sedes de corporações e que podem também utilizar a telemática para se interligarem aos mercados globais. Sobre tais serviços Simmons argumenta que "a melhoria tecnológica amplia o raio de ação pelo qual se podem oferecer serviços"[17].

O problema do excesso da oferta da técnica, é o fim do trabalho, a perda de um lugar e principalmente de um horário de trabalho pode ser catastrófica, levando o homem a uma espécie de escravidão. Para de Masi (em: A emoção e a regra) o mundo moderno do próximo século será o mundo do “tempo livre”, haverá mais lazer no futuro, será

“É uma análise otimista e eufórica sobre o tempo livre e a cultura. No século XIX, a oposição social era entre o campesinato e proletariado. O campesinato ia tornar-se proletariado nas cidades. No século XX, a oposição social é entre a periferia e a cidade. E o que se prepara para o século XXI é novamente a oposição entre os nômades e os sedentários. Os que em nenhum lugar estão em casa e os que estão em casa em qualquer lugar, graças ao telefone celular, ao computador etc. Acho que a “desendetarização” de uma parte cada vez mais importante da população não levará ao lazer, mas à guerra civil. Temos exemplos disso não só em São Paulo, mas também em Paris. Um homem é sedentário em três elementos: na família, se a família dura, quando a família desmorona ele se torna nômade, são as crianças abandonadas de São Paulo e outros lugares; no trabalho, porque ele tem um contrato por tempo indeterminado e está seguro de seu emprego, e claro, em sua casa na cidade. Há hoje três estruturas: a família, o trabalho e a cidade que expulsam o indivíduo. Por quê? Porque ele não tem mais suas competências. Em breve, para ter um trabalho permanente será preciso ser Prêmio Nobel... Então o problema para mim não é o do lazer, é o da violência que se prepara para as pessoas que não terão mais trabalho. Vai recomeçar aquela oposição que estava na origem, bem antes da luta de classes. É a primeira oposição histórica, ou seja, a oposição entre os nômades e os sedentários.” [Excertos de Virilio, 1999: 127-139]

        Bem, é claro que essa concentração de escritórios, prestadores de serviços e financeiras acaba gerando necessidades contínuas por uma ampla variedade de serviços de consumo geral tais como, restaurantes, centros de compras, limpeza, motoristas de ônibus, guardas de segurança, garçons, etc. Todas funções freqüentemente temporárias (subemprego), de meio período e com baixos salários, que superam, em geral com um fator de 2 ou 3 para um, o número de postos profissionais de alto nível seja nas corporações, seja nas empresas de serviços. Essa situação contribui para o desenvolvimento, nessas grandes cidades, de uma estrutura de classes altamente desigual e polarizada.

        A posição privilegiada dessas cidades como um sistema componente da melhor, mais barata e mais competitiva infra-estrutura mundial de telecomunicações, além dos efeitos benéficos da liberalização, também contribuem para a sustentação da centralização. Não é por acaso que os Estados Unidos, Japão e Reino Unido fossem, durante a explosão dos serviços ocorrida nos anos 80, as primeiras nações a liberalizar suas legislações de telecomunicações. Em todos esses casos, a liberalização contribuiu de forma bastante adequada para o fortalecimento das posições dos centros de comando global desses países, possibilitando inovações competitivas na área de telecomunicações. Também não é por acaso que exatamente esses centros de comando global, sejam aqueles que mais freqüentemente apresentem os exemplos mais adequados de investimento e uso das telecomunicações em metrópoles dominantes, conforme já destacamos anteriormente. Na Grã Bretanha, por exemplo, a Corporação de Londres argumenta que a liberalização das telecomunicações no Reino Unido, feita em 1981, tem contribuído diretamente para que Londres seja, contínua e competitivamente, uma das capitais globais da informação: "a inovação de produtos e a disponibilização de serviços em telecomunicações (...) está sendo dirigida para os serviços financeiros. Percebe-se que a competição entre os provedores de telecomunicações produz um impacto considerável sobre os consumidores. Houve uma redefinição dos serviços e uma redução de custos[18]

        Mas, também existem importantes razões sociais e culturais para esse contínuo predomínio dos centros de comando global, mesmo quando a informação formal tradicionalmente dominada por eles possa ser agora acessada "on-line", de praticamente qualquer lugar. No mundo dos centros de comando global, altamente incerto e complexo, a informação tácita, informal e clandestina, baseada na confiança e nas redes de relações sociais, é extremamente valorizada. Essa informação está sutilmente confinada àqueles que estão "dentro" dessas redes sociais, localizadas nas instituições-chave dessas cidades, nas quais um intenso contato face-a-face é de uma importância crítica. Nunca será possível substituir, pelas informações via telecomunicações, a tácita troca de informações que ocorre na hora do almoço ou nos bares após o expediente de trabalho. Em resumo, as pessoas que estão na cúpula do poder nas corporações, e também aquelas no topo dos mercados financeiro e de serviços, precisam estar "por dentro" das coisas por meios que não podem ser substituídos pela telemática. Rob Atkinson conta uma história real sobre uma advogada de um escritório em Washington DC que foi afastada de seus colegas, "para o outro lado do prédio". Após duas semanas, sentindo-se isolada, ela pediu para retornar junto deles[19].

        Do alto de sua fama como centros de escritórios corporativos e centros de prestação de serviços de alto nível, Londres, Tóquio e Nova Iorque formam, juntas, um eficaz mercado financeiro globalizado, interligado via telemática. Mais uma vez, isso aconteceu devido à emergência de verdadeiros mercados globais e TNCs, que necessitam de fluxos e sistemas financeiros para executar suas operações. A liberalização do comércio nacional, e das regulamentações sobre investimentos financeiros, também estimulam, diretamente, a demanda por serviços financeiros internacionais. Citando Sassen, tais serviços funcionam como um "mercado transterritorial"[20] para as finanças, tendo Tóquio como o principal exportador de capitais (com base no Yen), Londres como o principal centro de processamento do capital internacional (baseado no Marco Alemão e no Euro), e Nova Iorque como o principal centro captador de capitais (baseado no Dólar estadunidense). Juntos, eles configuram um conjunto de mercados financeiros globais, integrados 24 horas por dia, que dominam o fluxo financeiro e de serviços do mundo capitalista. As horas de abertura e fechamento do mercado de ações dessas cidades são coordenadas de forma a algum estar sempre aberto. Além de estar sendo estudada a possibilidade de um funcionamento contínuo de todos. "Quando Londres vai dormir, Tóquio inicia suas operações, e Wall Street começa a fervilhar ao fim dos negócios japoneses"[21].

        Decisivamente, as transações financeiras em escala global têm sido, cada vez mais, intermediadas através de complexos sistemas de redes avançadas de telecomunicações, que estão ocupando os corredores de tráfego entre essas cidades - especialmente através de satélites mundiais e sistemas de fibras ópticas. Pretende-se, com isso, eliminar o tempo diferido nas transações financeiras, de forma a melhorar a taxa de fluxo e circulação de capitais, e conseguir maiores vantagens para os investidores a cada flutuação mínima nos valores das ações e nas taxas de câmbio. Os atuais "balcões de negociação" digitais - sistemas computadorizados de comercialização vinculados à rede de telecomunicação mundial - oferecem aos operadores conexões virtualmente instantâneas (abaixo de 100 milissegundos) com os compradores. Atualmente a Rede Digital de Serviços Integrados (RDSI) está sendo utilizada para as conexões multimídia entre compradores e vendedores. Esse aumento de velocidade resulta numa crescente volatilidade dos mercados, num ajuste instantâneo às mudanças das taxas de câmbio, e numa circulação de fundos de investimentos em rede, jamais vista. A escala desses fluxos financeiros eletrônicos é espantosa: o valor médio do comércio de ações inter-fronteiras alcança hoje US$ 10 trilhões por dia. Todos esses fluxos funcionam como um grande estímulo para outros fluxos de comunicação e informação entre os três grandes centros, como por exemplo, os centros de informação financeira on-line e o tráfego internacional de telefones. Ilustrando, sabe-se que o número de chamadas telefônicas feitas diariamente de Wall Street cresceu de 900.000 em 1967 para 13 milhões em 1998.

 

Conclusão

"o mundo da tecnologia da informação é um mundo feito para poucos afortunados, talvez 20% da população; são as pessoas, hoje denominadas ‘analistas simbólicos’, que podem trabalhar com números e idéias, morando em isolados e arborizados subúrbios, cercados por altos portões e guaritas; são aquelas pessoas que ficam sentadas junto aos seus computadores portáteis e seus telefones, acessando informações por todo o mundo. E elas não se aventuram sair para o centro da cidade, não se utilizam dos transportes públicos, e quando viajam, é na parte dianteira dos vôos internacionais (...) E depois vem o resto, aqueles que não têm acesso a essas tecnologias, que não sabem como utilizá-la, e que não sabem gerar produtos através dela.
E esses, moram no centro das cidades, utilizam-se dos transportes públicos, e passarão por tempos difíceis"

                        (Handy, 1998; Cidade Cibernética in: canal 34 CNN/EUA; no Brasil, em 4/6/1999 no canal 41 GNT da Net.)

        As indústrias de desenvolvimento de “software” da Índia, por exemplo, estão crescendo a taxas de 30 a 40% ao ano, uma vez que o governo indiano seduz as grandes empresas de “software”, como a Dell e a Microsoft, oferecendo conexões de telecomunicação, treinamento de suporte e redução de impostos. Mais ou menos 15 a 20.000 pessoas estão, atualmente, desenvolvendo “softwares” na Índia, e diversas linhas telefônicas “hot lines” para suporte aos usuários de “softwares” do Ocidente, têm sua base na Índia, onde pessoas de alta qualificação podem ser recrutadas a custos muito baixos. Um outro serviço global com base nesse país é uma forte equipe de 60 pessoas que coordena o “catering” mundial a partir do sistema de reservas da British Airways.

        À medida em que ampliam-se as capacitações para um sistema global de fibras ópticas e satélites, e à medida em que os custos caem vertiginosamente, prevê-se uma crescente diversificação das redes de suporte à "imigração eletrônica". Esse panorama põe em risco um enfraquecimento gradual da oferta de emprego em serviços nos países ocidentais mais avançados - o principal motor da economia das cidades ocidentais - já que muitos dos serviços estão imitando as manufaturas na busca de custos mais baixos nos países de industrialização recente e nos países em desenvolvimento. Será cada vez mais viável conectar serviços de vídeo e imagens a diferentes distâncias do globo, tão baratos quanto as conexões de dados e voz. O Banco Mundial já propôs a idéia de utilizar o trabalho da África para monitorar os sistemas de câmeras de circuito fechado de Tevê (CCTV) dos "shoppings centers" estadunidenses. Um conferencista disse, recentemente, que "existe um potencial para os países africanos participarem da economia global através desses tipos de tecnologias"[22]. Para o grupo Tektronix, fabricante de computadores, o monitoramento por CCTV já está sendo executado a 2.000 milhas de distância de sua sede em Portland, Atlanta, Georgia. Eles também já estão estudando a possibilidade de transferir o monitoramento para centros de baixo custo na África.

        Fica claro que a ameaça mais concreta é que a combinação das atuais tendências econômicas, sociais e tecnológicas gera tamanhas fragmentações e polarizações, resultando naquilo que Riccardo Petrella, Comissário Europeu, chama de "um arquipélago de ricas cidades-regiões de alta tecnologia no mar da humanidade empobrecida"[23]. Para estes grupos emergentes, com sorte suficiente para estarem no controle da tecnologia, a telemática lhes oferece inúmeras possibilidades de reorganização e individualização da vida cultural e social das cidades. "O indivíduo pode dissociar-se dos outros", dita Storgaard et al, "e, junto com isso, aplicando a tecnologia da informação, ele/ela podem eliminar, praticamente, quaisquer controles. Conforme o estilo de vida, cada indivíduo poderá dissociar-se do que lhe é estranho, exatamente ao mesmo tempo que poderá enfatizar sua vinculação a determinado grupo, lugar ou comunidade local. Por outro lado, as pessoas, utilizando a tecnologia da informação, poderão derrubar barreiras impostas por um dado grupo ou local. Assim, fica mais fácil escolher as vinculações futuras de um indivíduo, sem ficar atado indefinidamente a outras. Ou seja: será mais fácil vincular-se àqueles que compartilham dos mesmos interesses, do que àqueles que compartilham a mesma localização física[24].

        Também tenho dúvidas acerca da extensão de quanto a convivência, as interações frente-a-frente e o senso público e democrático dos espaços urbanos podem ser, verdadeiramente, substituídos pela interação em cidades virtuais. As capacidades de intermediação das atividades econômicas e sociais através das telecomunicações são, muitas vezes, exageradas; a importância contínua da concentração de atividades nos espaços urbanos é quase sempre sub-avaliada no clamor da mediatização da "revolução das telecomunicações". Recentemente, dois sociólogos alertaram sobre os perigos de se esperar muito das cidades e comunidades virtuais. Eles argumentam que esses desenvolvimentos simplesmente oferecem "uma fantasia pela qual podemos viver uma aparente proximidade com os outros, conversar com eles e expressar nossos sentimentos", enquanto eles "ignoram a dimensão comunitária, que consideramos central nesse conceito, em especial no aspecto afetivo; e a dimensão de identidade vinculada ao ‘estar junto’. Esse é o ‘cordão emocional e afetivo’ da solidariedade"[25]. Ainda não é claro o quanto as cidades virtuais, estruturadas como espaços específicos, podem suportar o sentimento de "estar junto".

        Os planejadores devem estar atentos, também, para o perigo das cidades virtuais produzirem outras transposições das interações sociais dos espaços urbanos para redes eletrônicas segmentadas, exacerbando, assim, os problemas. Então, fica como mensagem que políticas inovadoras meticulosas são, com certeza, importantes, mas, elas precisam ser estruturadas como um estímulo direto a melhorias nas cidades reais através de, por exemplo, acurados debates sobre a política de planejamento e desenvolvimento, e a geração de novos eventos e atividades nos centros das cidades. Resumindo, os espaços urbanos e os espaços eletrônicos devem ser planejados em paralelo.


The sense of the city in the century XXI
(virtual spaces or real spaces?)

 

abstract

The revolution technician-scientific informational provoked a great number of alterations in the human life. The largest was the admission, in definitive, of the machine in the daily. In that beginning of a new millennium, the humanity builds a world more and more urbanized and a society intensely based on the speed of the digital flows of information. What civilization will be born of that communion of the stone jungle with the virtual city? That text fumbles answers for that question.  I consider that complex theme and still little explored. Being these temporary analyses in the group of the knowledge, the same ones can be altered and deepened later, with the continuity of the studies in the field of the relationships of the society and of the technologies.

                    Key words: Urban Geography, city, computerization, technological restructuring, disterritorylization, manipulation, no-space.
                                       


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Notas

  1. Telecommunications and the City: Electronic Spaces, Urban Spaces, de autoria de Stephen Graham e Simon Marvin, publicado por Routledge (Londres e Nova Iorque), em fevereiro de 1996. - voltar

  2. A Cidade e a Mídia na Era Digital, esse texto foi publicado por "O Estado de S. Paulo" em 26 de maio de 1996. - voltar

  3. Veja Telecommunications and the City: Electronic Spaces, Urban Spaces, de autoria de Stephen Graham e Simon Marvin, publicado por Routledge (Londres e Nova Iorque), em fevereiro de 1996. - voltar

  4. Veja os filmes; Inimigo do Estado, Nova Iorque Sitiada, Três Dias de Condor, Conversação, etc. - voltar

  5. Webber, M. (1964), "The Urban Place and The Non Place Urban Realm", in Webber, J. Dyckman, D. Foley, A. Guttenberg, W. Wheaton and C. Whurster, (Eds) Explorations into Urban Structure, University of Pennsylvania Press, Philadelphia, 79-153. - voltar

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  7. Beckouche, P. e Veltz, P. (1968), "Nouvelle Économie, Nouveau Territoire". Suplemento do The June Datar Letter. - voltar

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  11. Gottmann, J. (1983), The Comming of the Transactional City. Institute of Urbans Studies, University of Maryland, Série Monografias. n. 2. - voltar

  12. Mulgan, G. (1989) "A Tale of New Cities", Marxism Today, March, 18-25. - voltar

  13. Cabem aqui mais duas outras tendências da maior importância. A primeira, é a abertura dos espaços econômicos nacionais para as forças econômicas globais, impulsionada por instituições supranacionais da União Européia, do NAFTA, FMI, BIRD e a OMC. Isso significa que tais processos estão, cada vez mais, inseridos em objetivos globais. Tem especial importância a crescente liberdade de movimentação em torno de capitais, dinheiro, bens e serviços por todo o mundo, numa base rápida e flexível. As redes de telecomunicação e telemática estão apoiando, de maneira significativa, esse processo de globalização. A segunda tendência é o crescente predomínio das Corporações Transnacionais (TNCs) em todos os setores da economia, as 500 maiores, são responsáveis atualmente por 30% do produto global bruto, 70% do comércio mundial e 80% do fluxo internacional de investimentos. - voltar

  14. Mitchelson, R. e Wheeler, J. (1994), "The flow of information in a global economy: the role of the American urban system in 1990", Annals of the Association of American Geographers, 84(1), 87-107. - voltar

  15. Op cit 14. - voltar

  16. Sassen, S. (1998), As Cidades na Economia Mundial. Studio Nobel: São Paulo. - voltar

  17. Simmons, T. (1994), "Telecoms Contribute to City’s World Status", Municipal Review, January/February, 210. - voltar

  18. Op cit 17. - voltar

  19. Atkinson, R. (1995), "Technological change, service employment and the future of the cities", (Mimeo: Available from: Washington: Office of Technology Assessment), citado por Geoff Mulgan, em: Communication and Control (1991; 17). - voltar

  20. Op cit 16. - voltar

  21. Budd, L. (1994), "The growth of a global strategic alliances in different financial centres". Comunicação apresentado na conferência Cities, Enterprises and Society on the Eve of the 21st Century, Lille, March. - voltar

  22. Bannister, N. (1994). "Networks tap into low wages", The Guardian, October 15, 40. - voltar

  23. Petrella, R. (1992), "Techno-apartheid for a global underclass", Los Angeles Times, 6 August. - voltar

  24. Storgaard, K. e Jensen, O. (1991), "IT and ways of life", em P. Cronberg, P. Dueland, O. Jansen e L. Qvortrup (eds), Danish Experiments: Social Constructions of Technology, New Social Sciences Monographs: Copenhagen, 123-139. - voltar

  25. McBeath, G. e Webb S. (1995), "Cities subjectivity and cyberspace". Comunicação apresentado na conferência anual da British Sociological Association, Leicester. - voltar


[*] Professor de geografia em Curitiba na UNIBEM e Ibpex. - e-mail: crocetti@uol.com.br - voltar


Referência: CROCETTI, Zeno Soares. O sentido da cidade no século XXI (espaços virtuais ou espaços reais?). Revista Paranaense de Geografia, Nº 6, Curitiba, pp. 51-66, 2001


© Associação dos Geógrafos Brasileiros - Seção Curitiba.

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